Acordo de cooperação reúne experiência regulatória, articulação comunitária e formação técnica para ampliar a autonomia de comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhas na gestão da energia em seus territórios
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a Rede Conexão Povos da Floresta, por meio do Instituto Conexão Povos da Floresta (ICPF), e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Rio Grande do Norte (SENAI-RN) assinaram, nesta quarta-feira (30/9), um acordo de cooperação para ampliar a formação e certificação de integrantes de comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhas da Amazônia Legal como Agentes Comunitários de Energia.
A parceria combina as diferentes áreas de atuação das três instituições: a experiência da ANEEL no setor elétrico e na construção de soluções regulatórias para ampliar o acesso à energia; a articulação territorial e o relacionamento com as comunidades desenvolvidos pela Rede Conexão Povos da Floresta; e a experiência do SENAI-RN na formação profissional e certificação técnica.
Participaram da cerimônia representantes das três instituições e das organizações que integram a Rede, entre eles a secretária-executiva do Instituto Conexão Povos da Floresta, Juliana Dib; o representante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e membro do Conselho da Rede Conexão, José Carlos Guerreiro Galiza; e o diretor regional do SENAI-RN, Rodrigo Mello, além de dirigentes e representantes da ANEEL.
Trabalho coletivo para ampliar o acesso à energia

Crédito: Comunicação ANEEL
Durante a cerimônia, Juliana Dib destacou que a cooperação entre diferentes organizações está no centro da atuação da Rede Conexão.
“A Rede Conexão Povos da Floresta é um movimento que acredita que a mudança vem a partir de um trabalho coletivo. A missão não é simplesmente ativar a internet ou levar um curso para uma comunidade específica. É a criação de uma rede das comunidades da floresta, para que todos os processos sejam escaláveis e todos os programas tenham esse lugar de autonomia das comunidades em relação à gestão, seja do uso da energia ou seja do uso da conectividade”, afirmou.
Segundo Juliana, o objetivo vai além da implantação de infraestrutura ou da realização de formações isoladas. A proposta é contribuir para a criação de uma rede entre as comunidades da floresta, permitindo que os programas ganhem escala e, ao mesmo tempo, fortaleçam a autonomia comunitária na gestão da conectividade e da energia.
Conhecimento que se constrói e permanece nos territórios

Crédito: Comunicação ANEEL
O acordo está relacionado ao Sandbox Regulatório Energias da Floresta, iniciativa da ANEEL voltada à busca de soluções inovadoras para ampliar o acesso à energia na Amazônia Legal. A experiência acumulada nos territórios evidenciou a importância de fortalecer capacidades locais para o uso, a gestão e a sustentabilidade dos sistemas energéticos instalados nas comunidades.
“Mais do que capacitar e certificar agentes, buscamos criar capacidade permanente nos territórios para que o conhecimento permaneça nas comunidades, fortaleça o uso seguro da energia e amplie a sustentabilidade das soluções instaladas. Também queremos aprender com as comunidades, pois a inovação regulatória exige escuta, participação e avaliação”, destacou Paulo Luciano de Carvalho, superintendente de Inovação e Transição Energética da ANEEL.
A formação de Agentes Comunitários de Energia responde diretamente a um desafio recorrente nos territórios amazônicos. Em regiões marcadas por grandes distâncias e dificuldades logísticas, a presença de pessoas capacitadas nas próprias comunidades pode contribuir para o uso seguro dos sistemas, a identificação de situações de risco, a realização de procedimentos compatíveis com a formação recebida e o acionamento dos canais adequados de suporte técnico.
Autonomia comunitária como parte da solução

Crédito: Comunicação ANEEL
Para José Carlos Galiza, representante da CONAQ e membro do Conselho da Rede Conexão, a iniciativa está diretamente relacionada à busca das comunidades por maior autonomia.
“Além da luta pelo acesso a políticas públicas, a gente luta pela nossa autonomia. Essa questão da autonomia é fundamental para a nossa existência, para que a gente possa aprender a operar, para que a gente possa aprender coisas que estão fora do nosso cotidiano, mas que são importantes”, afirmou.
Galiza destacou ainda as dificuldades enfrentadas quando sistemas instalados em regiões remotas necessitam de manutenção. “A comunidade passa semanas sem energia porque [o atendimento] não chega. Por isso, isso aqui é muito importante: ter pessoas lá na comunidade com essa formação”, acrescentou.
Formação técnica adaptada à realidade amazônica

Crédito: Maria Mendes
A experiência de formação dos Agentes Comunitários de Energia já vem sendo desenvolvida pela Rede Conexão Povos da Floresta em parceria com o SENAI-RN. Em 2026, uma turma realizada no Amapá reuniu 48 participantes de comunidades indígenas, quilombolas e extrativistas, em uma formação de 160 horas, combinando atividades a distância e presenciais e certificação do SENAI.
Com o novo acordo, as instituições fortalecem essa atuação conjunta e criam condições para ampliar a formação em outros territórios da Amazônia Legal. A formação será gratuita e contará com metodologia e materiais didáticos adequados à realidade das comunidades atendidas.
“O SENAI está nisso de forma firme, entendendo que tem muita contribuição para dar e que nenhuma pessoa, por nenhum motivo, pode ficar sem uma qualidade de vida adequada por falta de acesso à energia”, afirmou Rodrigo Mello, diretor regional do SENAI-RN. “Vamos trazer a expertise que a gente tem, desenvolver onde não tiver e colaborar para atividades como essa junto à ANEEL, junto com instituições como a Rede Conexão.”
Atuação complementar para fortalecer os territórios

Crédito: Comunicação ANEEL
No âmbito da cooperação, as instituições atuarão de forma complementar. A ANEEL acompanhará a iniciativa em articulação com os objetivos do Sandbox Regulatório Energias da Floresta e os aprendizados que possam contribuir para o aprimoramento da regulação do setor. A Rede Conexão Povos da Floresta contribuirá com a articulação e mobilização das comunidades e organizações que integram a Rede, além da experiência acumulada na implementação da formação nos territórios. O SENAI-RN contribuirá com sua expertise em educação profissional, formação técnica e certificação dos participantes.
A parceria reforça, assim, uma abordagem baseada não apenas na instalação de infraestrutura, mas também na formação de pessoas e no fortalecimento das capacidades comunitárias, para que o acesso à energia possa gerar benefícios duradouros e ampliar a autonomia dos povos da floresta.
Sobre a Rede Conexão Povos da Floresta
A Rede Conexão Povos da Floresta é uma iniciativa que tem como objetivo viabilizar, até o final da década, a inclusão digital e o acesso a políticas públicas para 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades, começando pela Amazônia e avançando para outras regiões em isolamento digital.
Liderada por CONAQ, COIAB e CNS, a iniciativa reúne mais de 50 organizações parceiras e atua com base em três pilares: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital com empoderamento. A proposta é garantir que a conectividade vá além do acesso à internet, tornando-se uma ferramenta de transformação social, promoção de direitos e conservação da floresta.
