Ações realizadas em agosto, nos municípios de Tabatinga e Benjamin Constant (AM), fortalecem atendimento remoto, formação de agentes e realização de exames em territórios de difícil acesso

Comunidades indígenas dos municípios de Tabatinga e Benjamin Constant, no Amazonas, receberam, em agosto de 2026, novas ações do Conexão Saúde, iniciativa da Rede Conexão Povos da Floresta que utiliza a conectividade para ampliar o acesso à saúde. As atividades envolveram atendimentos por telessaúde, realização de exames, aferição de sinais vitais, capacitação de profissionais e fortalecimento da estrutura necessária para levar o cuidado para mais perto das comunidades.

As ações fazem parte de uma estratégia que busca enfrentar um dos principais desafios da saúde em territórios isolados: a necessidade de deslocamentos longos para acessar atendimentos e exames. Por meio do Conexão Saúde, moradores podem contar com teleconsultas e serviços de apoio ao diagnóstico diretamente nos territórios conectados, reduzindo a necessidade de viagens e ampliando a frequência do acompanhamento de saúde.

Atualmente, 739 comunidades estão conectadas ao sistema do Conexão Saúde, que já contabiliza 8.024 utilizações de telessaúde, incluindo teleconsultas, telelaudos e aferições de sinais vitais. A plataforma reúne ainda 6.254 pessoas cadastradas e já possibilitou a emissão de 2.042 telelaudos.

“O Conexão Saúde tem o objetivo de apoiar essas unidades de saúde indígena para garantir esse benefício e o acesso à saúde a partir desse aplicativo. As comunidades terão a possibilidade de ter atendimentos telemediados com clínico-geral. Hoje, essa ferramenta é algo inovador para essas comunidades, pois, em situações em que não há médicos presenciais, a gente está possibilitando que essa aldeia tenha acesso à telemedicina. E isso está dentro do propósito e da missão da Rede Conexão Povos da Floresta, que é levar conectividade significativa para todas as populações da Amazônia brasileira”, afirma Danilo Duarte, conector em saúde pela Rede Conexão Povos da Floresta. 

Tecnologia a serviço do cuidado nos territórios

Crédito: Milena Soares

Em Tabatinga, onde o programa vem sendo desenvolvido em parceria com atores locais de saúde indígena, os resultados acumulados demonstram o potencial da estratégia. Na região, já foram registrados 3.240 utilizações do programa em seis polos de saúde, além da formação de 164 agentes comunitários de saúde e outros profissionais.

Também foram realizadas 465 aferições de sinais vitais, 379 teleconsultas com clínico geral e 188 teleconsultas com especialistas médicos, ampliando o acesso a profissionais que nem sempre estão disponíveis presencialmente nos territórios.

A experiência tem sido avaliada positivamente por profissionais que atuam diretamente na região. Adriana Campos, enfermeira da Casa de Apoio à Saúde Indígena (CASAI) de Tabatinga, avalia que a possibilidade de realizar exames e obter apoio médico remotamente representa um avanço para o atendimento e para o respeito às especificidades culturais das comunidades.

Uma das frentes de destaque é a utilização do eletrocardiograma (ECG) associado à conectividade. Com equipamentos que podem ser transportados até as comunidades, os profissionais conseguem realizar exames e encaminhar os dados para análise remota, permitindo a emissão de resultados sem que o paciente precise deixar seu território apenas para realizar o procedimento.

“É uma realidade que antes a gente sonhava e hoje a gente tem”, afirma Adriana, destacando que o uso do ECG e da telemedicina pode agilizar diagnósticos e reduzir deslocamentos de pacientes.

Para Sidneyri Olimpio, coordenador de Telessaúde do DSEI Alto Rio Solimões e da CASAI, sediada em Tabatinga, a experiência iniciada em abril tem apresentado boa aceitação entre usuários e equipes e já contribui para reduzir deslocamentos dentro do território.

“A gente viu que a população teve uma boa aceitação por parte dos nossos usuários e da equipe. Uma das melhorias é a diminuição da questão do combustível. O paciente agora não precisa mais se deslocar simplesmente por ter uma gripe, sair da sua aldeia e vir para o polo base. Ele consegue já ser atendido na UBSI de cada polo base”, destaca.

Segundo Sidneyri, a iniciativa também ampliou a frequência do acesso ao atendimento médico em locais onde a presença de profissionais era limitada. “A população está sendo assistida como antes não estava. O médico que temos no polo vinha uma vez por mês e, devido à grande população, não conseguiria estar todos os dias na UBSI. Hoje, através do projeto, que está oferecendo clínico 24 horas, a tendência é melhorar a questão da saúde e diminuir a mobilidade dentro do nosso território”, afirma.

O coordenador também destaca a importância da incorporação dos exames à estratégia de telessaúde. “A gente tinha a teleconsulta, mas faltava a questão do exame. E hoje esse projeto está proporcionando para a gente uma realidade que antes a gente sonhava e hoje a gente tem: médico 24 horas na UBSI”, completa Sidneyri, que agradece à Rede Conexão Povos da Floresta e seus parceiros pela iniciativa.

A mudança também é percebida por quem utiliza o serviço diretamente nas comunidades. Janete Felipe Fermino, moradora da comunidade Bananal, na região de Tabatinga, conta que o acesso às consultas médicas era mais demorado antes da chegada da telessaúde. Segundo ela, era necessário esperar e enfrentar filas para conseguir atendimento.

“A nossa realidade antes era outra, porque era um pouco difícil para ter as consultas. Aí tinha que esperar. Era aquela demora danada, tinha que ficar na fila. E hoje em dia já facilitou mais por conta das consultas online, com os melhores médicos. Facilitou bastante, não só para mim, como para a comunidade inteira, porque foi uma coisa boa para todos”, conta a comunitária.

Janete também relata a experiência de ter utilizado o serviço para uma consulta e destaca a agilidade proporcionada pelo atendimento remoto. “Hoje eu tive minha consulta e, graças a Deus, não foi difícil. Foi uma coisa fácil, rápida. Essa rapidez não existia. E agora é uma coisa mais fácil e mais rápida para se resolver na consulta”, afirma.

Parceria aproxima atendimento das comunidades

Crédito: Milena Soares

O Conexão Saúde integra as ações do Grupo de Trabalho de Saúde da Rede Conexão Povos da Floresta e conta com a parceria da Portal Telemedicina, responsável pelo desenvolvimento do aplicativo utilizado na estratégia de atendimento remoto. A iniciativa também dialoga com estruturas e profissionais da saúde indígena que atuam nos territórios.

As ações realizadas em Tabatinga ganharam projeção internacional em março de 2026, quando uma iniciativa de telemedicina implementada pela Internet Society (ISOC) e pela Rede Conexão Povos da Floresta foi apresentada no âmbito de um memorando de entendimento firmado entre o Brasil e a Comissão Interamericana de Telecomunicações (Citel).

A parceria busca demonstrar como a conectividade pode deixar de ser apenas uma infraestrutura de comunicação e se transformar em ferramenta para ampliar o acesso a serviços essenciais. No caso da saúde, isso significa criar condições para que comunidades em regiões de difícil acesso tenham atendimento, acompanhamento e apoio diagnóstico sem depender exclusivamente do deslocamento de pacientes e profissionais.

Formação e linhas de cuidado

Crédito: Milena Soares

Além das teleconsultas e dos exames, o Conexão Saúde trabalha com a formação de agentes e profissionais locais, a educação em saúde e a construção de linhas de cuidado adaptadas à realidade dos territórios.

A proposta é implantar um sistema de telessaúde conectado no qual os membros das comunidades possam ter acesso a atendimentos básicos durante a semana, articulando os recursos tecnológicos disponíveis com as equipes que já atuam na atenção à saúde indígena.

As atividades realizadas em agosto em Tabatinga e Benjamin Constant reforçam essa estratégia de aproximar tecnologia, profissionais e comunidades. Ao combinar infraestrutura de conectividade, equipamentos, capacitação e atendimento remoto, o Conexão Saúde busca contribuir para que o acesso à saúde aconteça cada vez mais próximo de onde as pessoas vivem.

Sobre a Rede Conexão Povos da Floresta

A Rede Conexão Povos da Floresta é uma iniciativa que tem como objetivo viabilizar, até o final da década, a inclusão digital e o acesso a políticas públicas para 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades, começando pela Amazônia e avançando para outras regiões em isolamento digital.

Liderada por CONAQ, COIAB e CNS, a iniciativa reúne mais de 50 organizações parceiras e atua com base em três pilares: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital com empoderamento. A proposta é garantir que a conectividade vá além do acesso à internet, tornando-se uma ferramenta de transformação social, promoção de direitos e conservação da floresta.