Crédito: Rede Conexão Povos da Floresta

Marco fortalece a inclusão digital de povos indígenas, quilombolas, extrativistas e comunidades tradicionais em territórios estratégicos para a conservação da floresta 

A Rede Conexão Povos da Floresta alcançou, em junho, a marca de 2.500 comunidades conectadas em diferentes regiões da Amazônia brasileira. O resultado representa um avanço significativo na missão de promover conectividade, inclusão digital e fortalecimento territorial para povos indígenas, quilombolas, extrativistas e outras comunidades tradicionais que vivem e protegem a floresta.

A conquista consolida o esforço coletivo de uma ampla rede de mais de 50 parceiros, organizações da sociedade civil, lideranças comunitárias, instituições públicas e apoiadores que vêm trabalhando para reduzir as desigualdades de acesso à comunicação em territórios historicamente excluídos da infraestrutura digital.

A expansão da conectividade tem permitido que comunidades ampliem o acesso a serviços essenciais, fortaleçam processos de educação e saúde, aprimorem a gestão territorial, desenvolvam atividades produtivas sustentáveis e ampliem sua participação em espaços de articulação e incidência política.

Conectividade que transforma realidades

Lenilda Xananawa (foto) considera que a chegada da conectividade abriu novas possibilidades em seu território.

Lenilda Xananawa (foto) considera que a chegada da conectividade abriu novas possibilidades em seu território. Crédito: Nathalie Brasil

Os impactos dessa transformação já podem ser percebidos no cotidiano das comunidades conectadas. Para Lenilda Xananawa, facilitadora da Aldeia Belo Monte, no município de Feijó (AC), a chegada da internet abriu novas possibilidades para a juventude, para as mulheres e para a valorização da cultura local.

“Quando a internet chegou na minha aldeia foi um avanço muito grande, porque onde nós não tínhamos tanto contato, nós perdíamos tantos projetos, tantas coisas importantes e hoje nós temos. Foi um avanço muito grande pra juventude e pras mulheres, principalmente, em busca de um bem melhor pros seus filhos, pra gente poder divulgar o nosso trabalho, as nossas festividades.

A gente não tinha essa comunicação da gente poder divulgar, de poder mostrar a nossa cultura. Então hoje a internet está sendo muito importante na nossa comunidade.”, destaca.

Além de ampliar oportunidades, a conectividade fortalece a autonomia das comunidades para compartilhar conhecimentos, preservar tradições e dar visibilidade às suas iniciativas e modos de vida. 

A Rede Conexão Povos da Floresta também investe na formação para o uso consciente das tecnologias. Por meio do curso Sabedoria Digital, iniciativa gratuita voltada às comunidades conectadas, 990 comunitários já participaram de formações sobre o uso seguro, responsável e estratégico da internet, ampliando as capacidades locais para aproveitar os benefícios da conectividade de forma alinhada às realidades dos territórios. 

Saúde e resposta a emergências

Consulta médica realizada via Conexão Saúde, sistema de telessaúde oferecido pela Rede Conexão Povos da Floresta. Crédito: Milena Soares

A conectividade também tem contribuído para aproximar comunidades remotas de serviços essenciais e oportunidades educacionais. Na Terra Indígena Araribóia, no Maranhão, Antônio Martins destaca os benefícios para a educação, a adaptação às mudanças climáticas e o atendimento em situações de emergência.

“A Rede Conexão Povos da Floresta, que chegou na nossa comunidade, foi de suma importância. As crianças e jovens que estão ali na escola se conectar nesse mundo que a gente vive hoje, mundo digital, que a gente tem que estar se adaptando. Com as mudanças climáticas também, que a gente tem que estar buscando, apresentando nas escolas.

O projeto trouxe pra gente um apoio muito grande na questão da saúde. Tem como a gente fazer um pedido de socorro, porque a gente mora a 70 km da cidade, então é um pouco difícil o deslocamento, a estrada é de chão, e facilitou aquele pedido de socorro, pra salvar vidas.”

A experiência relatada por Antônio reflete uma das frentes mais importantes impulsionadas pela conectividade nos territórios: o acesso à saúde. Por meio do Conexão Saúde, sistema de telessaúde oferecido pela Rede Conexão Povos da Floresta, 5.367 atendimentos já foram realizados, beneficiando moradores de regiões onde as distâncias e os desafios logísticos frequentemente dificultam o acesso a serviços médicos especializados.

Atualmente, o sistema reúne 4.869 pessoas cadastradas em 710 comunidades conectadas na Amazônia, ampliando o acesso à orientação médica e fortalecendo a capacidade de resposta das comunidades diante de situações de urgência e necessidades de acompanhamento em saúde.

Um marco construído em rede 

A Rede Conexão Povos da Floresta é construída por mais de 50 organizações e com a liderança de entidades representativas dos povos da floresta. Crédito: Nathalie Brasil

A marca de 2.500 comunidades conectadas reflete a força de uma construção coletiva liderada pelos próprios povos e comunidades da floresta. Por meio da atuação articulada de organizações indígenas, quilombolas, extrativistas e parceiros institucionais, a Rede Conexão Povos da Floresta vem ampliando o acesso à conectividade em territórios estratégicos para a proteção da Amazônia e a promoção de direitos.

Para Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a expansão da conectividade fortalece a autonomia dos povos indígenas e sua capacidade de defender os territórios.

“Para nós, povos indígenas da Amazônia, a conexão dos territórios, fortalecida pela atuação da COIAB e de nossas organizações, amplia nossa autonomia, organização e proteção. Esse marco mostra que a tecnologia é uma aliada na defesa dos nossos direitos e territórios.”

A conectividade também tem fortalecido a articulação e o acesso a políticas públicas em comunidades quilombolas da Amazônia. Segundo José Carlos Galiza, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), o avanço demonstra que é possível superar barreiras históricas de isolamento por meio de soluções construídas junto aos territórios.

“A Rede Conexão Povos da Floresta tem fortalecido os territórios quilombolas. A conexão, quando usada como ferramenta estratégica, gera resultados importantes para o fortalecimento das políticas públicas nos nossos quilombos. É bom saber que estamos avançando, mesmo com os desafios geográficos e climáticos da Amazônia. E é bom também sentir o sorriso e o brilho nos olhos das pessoas quando passam a se conectar em uma rede segura, com acesso à telessaúde, cursos e novas oportunidades.”

Joaquim Belo, secretário de Formação e Comunicação do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), aponta que cada nova comunidade conectada representa mais oportunidades para fortalecer a organização comunitária e a defesa dos territórios.

“Celebrar a marca de 2.500 comunidades conectadas é celebrar a redução das distâncias que historicamente isolaram os povos da floresta. Cada comunidade conectada representa mais comunicação, mais acesso à informação, mais oportunidades de aprendizado e mais fortalecimento da organização comunitária. A Rede Conexão Povos da Floresta tem cumprido um papel fundamental ao levar conectividade para territórios indígenas, quilombolas e extrativistas, permitindo que nossas comunidades estejam mais conectadas entre si, com suas famílias e com o mundo”. 

Para a secretária-executiva da Rede Conexão Povos da Floresta, Juliana Dib, o marco demonstra a capacidade de mobilização e cooperação construída ao longo dos últimos anos.

“Alcançar 2.500 comunidades conectadas mostra que é possível construir uma infraestrutura digital inclusiva, comunitária e alinhada às prioridades dos povos da floresta. Esse resultado é fruto de uma ampla articulação entre organizações indígenas, quilombolas, extrativistas, parceiros técnicos, financiadores e lideranças locais que acreditam que a conectividade deve servir à proteção dos territórios, ao acesso a direitos e ao fortalecimento das comunidades.”

Além de ampliar o acesso à internet, a iniciativa busca garantir que a conectividade esteja a serviço das prioridades definidas pelas próprias comunidades, respeitando suas culturas, formas de organização e projetos de futuro.

O presidente do Conselho Deliberativo da Rede Conexão Povos da Floresta, Tasso Azevedo, destaca que o alcance de 2.500 comunidades conectadas representa um passo importante para consolidar uma infraestrutura pública digital voltada aos povos da floresta.

“Alcançar 2.500 comunidades conectadas e cerca de 200 mil beneficiários é um marco que transforma o Conexão Povos da Floresta em uma infraestrutura pública digital capaz de aproximar as pessoas das políticas públicas e fortalecer os povos da floresta e sua contribuição fundamental para a proteção das florestas, da biodiversidade e das águas do Brasil.”

Sobre a Rede Conexão Povos da Floresta

A Rede Conexão Povos da Floresta é uma iniciativa que tem como objetivo viabilizar, até o final da década, a inclusão digital e o acesso a políticas públicas para 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades, começando pela Amazônia e avançando para outras regiões em isolamento digital.

Liderada por CONAQ, COIAB e CNS, a iniciativa reúne mais de 50 organizações parceiras e atua com base em três pilares: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital com empoderamento. A proposta é garantir que a conectividade vá além do acesso à internet, tornando-se uma ferramenta de transformação social, promoção de direitos e conservação da floresta.