Em painel no FIB16, Rede Conexão Povos da Floresta destaca inclusão digital, soberania tecnológica e o papel da conectividade no acesso à educação, saúde e proteção territorial nos territórios tradicionais amazônicos.

A conectividade significativa na Amazônia esteve no centro dos debates do 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB16), realizado entre os dias 25 e 29 de maio, em Belém (PA). O evento reuniu representantes da sociedade civil, pesquisadores, organizações comunitárias, gestores públicos e especialistas para discutir os desafios e os caminhos para a construção de uma internet mais inclusiva, democrática e conectada às realidades dos territórios brasileiros.

Promovido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), o Fórum da Internet no Brasil é uma atividade preparatória para o Internet Governance Forum (IGF), iniciativa global da Organização das Nações Unidas (ONU), e se consolidou como um dos principais espaços de debate multissetorial sobre governança, direitos digitais e inclusão no país.

Dentro da programação do FIB16, o painel “Conectividade & Inclusão Digital na Amazônia Brasileira” reuniu experiências, pesquisas e reflexões sobre os desafios da conectividade nos territórios amazônicos, especialmente junto a povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e comunidades tradicionais.

Representando a Rede Conexão Povos da Floresta, participaram do debate Sabrina Costa, coordenadora do Núcleo de Operações da Rede Conexão Povos da Floresta, José Carlos Galiza, coordenador da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), e Vagner Diniz, gerente do Ceweb.br | NIC.br.

📺 O painel completo está disponível no YouTube em: https://www.youtube.com/live/6IJGs6zm1JY?si=7_7qBjIL-sEPke0k

A conectividade como ferramenta de justiça social

Crédito: Ivan Duarte/O Liberal

Ao longo do painel, um dos pontos centrais do debate foi a necessidade de compreender a conectividade para além da infraestrutura tecnológica. O acesso à internet precisa estar vinculado à garantia de direitos básicos, como educação, saúde, comunicação comunitária, monitoramento territorial e fortalecimento do bem viver nos territórios tradicionais.

Sabrina Costa destacou que a ausência de conectividade significativa afeta diretamente o cotidiano e o acesso a direitos fundamentais das populações amazônicas.

“As comunidades tradicionais da Amazônia enfrentam essa ausência de inclusão digital e de conectividade significativa em seus territórios de diferentes formas. Uma das principais é a ausência de acesso à educação”, afirmou.

Segundo Sabrina, a falta de internet impacta tanto o ensino formal quanto modalidades de educação a distância, aprofundando desigualdades históricas na região. Ela também chamou atenção para os impactos na área da saúde, especialmente diante do avanço de ferramentas digitais de atendimento remoto.

“Hoje a gente trabalha a telessaúde, que é o atendimento à saúde por via digital. Então, essas comunidades, quando não estão conectadas à internet, acabam sendo excluídas desse acesso”, destacou.

Para a coordenadora do Núcleo de Operações da Rede Conexão Povos da Floresta, pensar conectividade na Amazônia é pensar transformação social e garantia de direitos. “A conectividade é um caminho para a justiça social nesses territórios. Ela possibilita ampliar o acesso à educação, à saúde e à proteção territorial dentro das comunidades”, declarou.

Participação comunitária e protagonismo dos povos da floresta

Crédito: Ivan Duarte/O Liberal

A dimensão coletiva da conectividade na Amazônia também foi destacada por Vagner Diniz, gerente do Ceweb.br | NIC.br. Segundo ele, os desafios da região exigem modelos próprios, baseados na escuta e na participação comunitária.

“A conectividade na Amazônia difere significativamente de outras áreas do nosso país, pois não se trata de uma experiência individualizada. Na Amazônia, em especial para os Povos da Floresta, trata-se de uma conectividade verdadeiramente comunitária”, afirmou.

Vagner ressaltou ainda que a conectividade significativa depende da construção conjunta com as pessoas que vivem e protegem a floresta. “Essencialmente, a conectividade comunitária depende da escuta dos povos da floresta para que seja de fato significativa para eles, seus parentes e para seus territórios, preservando a sabedoria ancestral e a priorização do uso para o interesse coletivo das comunidades conectadas”, declarou.

Ele também destacou a soberania digital como um dos pilares da Rede Conexão Povos da Floresta.

“O que alicerça o trabalho da Rede Conexão Povos da Floresta é a ideia de soberania digital que nasce da escuta dos povos tradicionais que são os sujeitos de sua própria história”, completou.

Estudo busca ampliar indicadores sobre inclusão digital na Amazônia

O painel também apresentou o estudo sobre conectividade e inclusão digital na Amazônia brasileira desenvolvido pelo Cetic.br | NIC.br em 2026, com apoio da Câmara de Universalização e Inclusão Digital do CGI.br e suporte do Programa de Acesso Digital (DAP) da Embaixada Britânica.

A pesquisa busca ampliar indicadores e diagnósticos sobre acesso à internet na região amazônica, combinando metodologias quantitativas e qualitativas em diálogo com organizações e comunidades locais.

Segundo Graziela Castello, coordenadora de Estudos Setoriais no Cetic.br | NIC.br, o estudo pretende contribuir para a formulação de políticas públicas mais aderentes às realidades amazônicas.

“Esse é um importante estudo, que se inicia em 2026 com o apoio da Câmara de Universalização e Inclusão Digital do CGI.br, que articulou o desenvolvimento desse projeto promovendo um diálogo multissetorial durante o FIB16. A grande aposta do estudo é justamente conseguir mais indicadores, dados e informações que sirvam de insumos para a construção de políticas públicas necessárias para essa região brasileira”, explicou.

Ela destacou ainda que o desenho metodológico inclui análise de dados do Censo IBGE 2022, Anatel, SIMET e da pesquisa TIC Domicílios, além da realização de grupos de discussão com comunidades extrativistas, ribeirinhas, quilombolas e indígenas ao longo do mês de julho.

“O objetivo final é mapear criticamente o cenário e levantar insumos que favoreçam a elaboração de políticas públicas e ações mais assertivas em prol de uma conectividade realmente significativa e aderente às diferentes realidades dessa região”, afirmou.

Cooperação internacional e fortalecimento da inclusão digital

Crédito: Divulgação NIC.Br

Parceira estratégica do estudo, a Embaixada Britânica também destacou a importância de iniciativas de transformação digital construídas a partir dos saberes locais e da autonomia comunitária.

“Desde 2020, a parceria Brasil-Reino Unido via Acordo de Cooperação com o NIC.br | CGI.br promove a transformação digital e a conectividade significativa valorizando os saberes locais”, afirmou Julia Wolff, gerente do Programa de Acesso Digital (DAP) da Embaixada Britânica no Brasil.

Segundo Julia, o apoio ao estudo busca fortalecer processos de inclusão digital segura e autônoma nos territórios amazônicos.

“Nosso apoio ao Cetic.br nesta pesquisa visa impulsionar um mapeamento sobre inclusão segura e autônoma na Amazônia, com foco em desafios e oportunidades para uma transformação digital verdadeiramente significativa para os Povos da Floresta”, destacou.

Ela também ressaltou que o programa é desenvolvido em outros países, como África do Sul, Nigéria, Quênia e Indonésia, sempre priorizando abordagens construídas junto às comunidades locais.

“Ao apoiar o Cetic.br e o NIC.br neste mapeamento na Amazônia, buscamos não apenas aumentar o acesso técnico à Internet, mas também o fortalecimento de uma capacitação segura e autônoma, focada em prioridades como cibersegurança e capacitação dos usuários, permitindo que a inclusão digital ande de mãos dadas com a sustentabilidade e a acessibilidade”, concluiu.

Sobre a Rede Conexão Povos da Floresta

A Rede Conexão Povos da Floresta é uma iniciativa que tem como objetivo viabilizar, até o final da década, a inclusão digital e o acesso a políticas públicas para 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades, começando pela Amazônia e avançando para outras regiões em isolamento digital.

Liderada por CONAQ, COIAB e CNS, a iniciativa reúne mais de 50 organizações parceiras e atua com base em três pilares: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital com empoderamento. A proposta é garantir que a conectividade vá além do acesso à internet, tornando-se uma ferramenta de transformação social, promoção de direitos e conservação da floresta.