Encontro em Brasília reuniu lideranças indígenas, quilombolas, extrativistas ribeirinhas para ampliar a inclusão digital, acesso seguro à internet e utilização de serviços públicos digitais nos territórios da Amazônia Legal brasileira.

Crédito: João Vitor Tavares
A Rede Conexão Povos da Floresta realizou entre os dias 04 e 06 de maio, em Brasília, a Oficina de Multiplicadore(a)s do Sabedoria Digital, iniciativa voltada à formação de lideranças comunitárias para o uso seguro, consciente e estratégico da internet nos territórios da Amazônia Legal.
A oficina reuniu representantes de comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhas de diferentes regiões do país com o objetivo de fortalecer a inclusão digital e ampliar o acesso das populações tradicionais a políticas públicas e serviços digitais.
Durante a programação, integrantes da Secretaria de Governo Digital conduziram atividades práticas sobre o uso da plataforma GOV.BR, apresentando funcionalidades e esclarecendo dúvidas dos participantes. Entre os temas mais debatidos estiveram as dificuldades de acesso relacionadas ao reconhecimento facial e os desafios enfrentados pelas comunidades em regiões com baixa conectividade e limitações tecnológicas.
A ação contou com apoio do NIC.br | Ceweb.br e da Embaixada Britânica no Brasil, além da parceria do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), por meio da Secretaria de Governo Digital (SGD). Os participantes destacaram que serviços como Bolsa Família, Meu INSS, Programa Dignidade Menstrual e Pé-de-Meia estão entre os mais utilizados pelas populações atendidas pela Rede.
A indígena Luara Souza do Nascimento, da etnia Sapará, que vive no município de Amajari (RR), participou da oficina como multiplicadora e relatou a importância do acesso às ferramentas digitais para as comunidades. “Apesar das dificuldades, quando você já está familiarizado com os aplicativos, resolve muita coisa na sua vida. Nem precisa se deslocar até o município ou capital mais próxima para resolver determinados assuntos, até porque nas comunidades a gente não tem aquele recurso financeiro para se deslocar”, afirmou.
Formação para ampliar a autonomia digital nos territórios

Crédito: João Vitor Tavares
Criada em 2022, a Rede Conexão Povos da Floresta articula comunidades tradicionais de diferentes biomas brasileiros em torno da conectividade significativa, da inclusão digital e do fortalecimento do acesso a direitos. Dentro dessa estratégia nasceu o Sabedoria Digital, formação voltada ao uso prático e seguro das tecnologias no cotidiano das comunidades.
A Oficina de Multiplicadore(a)s busca justamente ampliar o alcance dessa iniciativa, preparando lideranças e representantes locais para replicar os conteúdos e metodologias da formação em seus próprios territórios.
Ana Netto, secretária-geral dos Grupos de Trabalho da Rede Conexão Povos da Floresta, considera que o encontro foi marcado principalmente pela troca de experiências entre as lideranças.
“Mais do que uma formação, esse encontro de legítimos representantes de comunidades tradicionais da Amazônia Legal brasileira fez com que todos pudessem compartilhar vivências, prioridades e perspectivas. As trocas foram extremamente ricas e nos ajudaram a identificar novas possibilidades para alcançar e conectar mais de 9 mil comunidades da Amazônia e integrar também novos biomas”, destacou.
Para o educador Marcos Cabuia, que participou da condução das atividades formativas, a oficina representa um passo importante para fortalecer a autonomia digital das comunidades tradicionais a partir de uma perspectiva construída dentro dos próprios territórios.
“Uma das principais missões que temos como Rede é a possibilidade de conectar todas as comunidades que fazem parte da Amazônia brasileira a uma internet segura e de qualidade que possa empoderar as pessoas. Aí reside esse desafio de que as pessoas desses territórios tenham os conhecimentos adequados para lidar com essa tecnologia. A Oficina de Multiplicadores(as) do Sabedoria Digital traz essa possibilidade da gente pensar a formação dentro do território com a ação dos multiplicadores dentro do território. Então, essa formação foi muito significativa pensando nessa transformação mesmo de chegar até esses territórios com esses conhecimentos que são necessários para as populações, pros facilitadores, pra todos os comunitários, trazendo o empoderamento do uso seguro e com qualidade da tecnologia da internet e todas as conexões que chegam com isso também nos territórios”, destacou.
Materiais educativos fortalecem uso seguro e inclusivo da web

Crédito: João Vitor Tavares
A iniciativa também contou com apoio do Programa de Acesso Digital do Reino Unido no Brasil. Segundo Julia Wolff, gerente do programa na Embaixada Britânica, o projeto reforça o compromisso internacional com uma transformação digital inclusiva e centrada nas comunidades.
“A colaboração entre o Programa de Acesso Digital do Reino Unido no Brasil, Ceweb.br do NIC.br e a Rede Conexão Povos da Floresta reafirma nosso compromisso conjunto com uma transformação digital inclusiva, sustentável e centrada nas pessoas. Ao ampliar o acesso à conectividade significativa na Amazônia, fortalecemos o protagonismo das comunidades locais e apoiamos que suas vozes e saberes tradicionais integrem as soluções globais para o clima”, afirmou.
Durante o encontro também foram lançados materiais educativos voltados às boas práticas de uso da web, desenvolvidos pelo Ceweb.br | NIC.br em parceria com a Rede.
Segundo Selma de Morais, coordenadora do Núcleo de Open Web do Ceweb.br | NIC.br, os conteúdos foram produzidos respeitando a diversidade cultural e linguística dos territórios amazônicos. “Os materiais foram desenvolvidos com respeito à diversidade cultural e linguística dos territórios. Entre eles, destaca-se uma série de vídeos educativos com recursos de acessibilidade, como audiodescrição, interpretação em Libras e tradução para a língua Yanomami”, explicou.
Ela também ressaltou que os conteúdos dialogam diretamente com o Guia Rápido de Boas Práticas para Uso da Web, disponível em formatos impresso e digital, reunindo orientações para que quilombolas, extrativistas, indígenas e ribeirinhos utilizem a internet de forma segura, crítica e significativa.
Selma reforçou ainda o compromisso do Grupo de Trabalho de Educação da Rede em ampliar continuamente a formação de facilitadores, multiplicadores e lideranças comunitárias. “A conectividade nos territórios da Amazônia Legal precisa ser significativa, segura e promotora de direitos, autonomia e inclusão digital”, concluiu.
IA Parente amplia acesso à informação nos territórios

Crédito: João Vitor Tavares
Durante a programação da oficina, a Rede Conexão Povos da Floresta também apresentou oficialmente aos multiplicadores a IA Parente, uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida para atuar como canal direto de informações sobre a própria Rede e sobre políticas públicas voltadas às comunidades conectadas pela iniciativa.
A proposta da IA Parente é facilitar o acesso a informações qualificadas de forma simples, acessível e adaptada à realidade dos territórios, fortalecendo a autonomia das comunidades e apoiando a atuação das lideranças formadas pelo Sabedoria Digital. A ferramenta deverá contribuir para expandir o alcance das ações da formação, auxiliando multiplicadores na disseminação de conteúdos, orientações e serviços públicos digitais junto às populações indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhas.
Sobre a Rede Conexão Povos da Floresta
A Rede Conexão Povos da Floresta é uma iniciativa que tem como objetivo viabilizar, até o final da década, a inclusão digital e o acesso a políticas públicas para 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades, começando pela Amazônia e avançando para outras regiões em isolamento digital.
Liderada por CONAQ, COIAB e CNS, a iniciativa reúne mais de 50 organizações parceiras e atua com base em três pilares: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital com empoderamento. A proposta é garantir que a conectividade vá além do acesso à internet, tornando-se uma ferramenta de transformação social, promoção de direitos e conservação da floresta.
