Iniciativa destacou o papel da conectividade para ampliar o acesso a políticas públicas, ofereceu atendimentos ao público e demonstrações tecnológicas ao longo do evento

A Rede Conexão Povos da Floresta marcou presença no Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, o maior espaço de mobilização indígena do Brasil e da América Latina, reforçando seu compromisso com o fortalecimento de alianças entre povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações parceiras. Ao longo do evento, realizado entre os dias 05 e 11 de abril, a Rede promoveu espaços de diálogo, troca de experiências e apresentação de soluções que conectam territórios e ampliam o acesso a direitos.

Realizado anualmente em Brasília desde 2004, o Acampamento Terra Livre se consolidou como um marco da articulação nacional dos povos indígenas, reunindo milhares de lideranças de todas as regiões do país. O ATL é um espaço de incidência política e visibilidade das pautas indígenas, onde são debatidos temas centrais como demarcação de terras, proteção territorial, políticas públicas e direitos constitucionais, além de promover o fortalecimento das alianças entre diferentes povos e organizações.

Mesa “Conectar para fortalecer” destaca caminhos para políticas públicas

Crédito: Pedro Garcês/CONAQ

Um dos principais momentos da Rede Conexão no ATL foi a mesa-redonda “Conectar para fortalecer: como a Rede Conexão Povos da Floresta impulsiona políticas públicas e cria soluções para os territórios?”, realizada no último dia 08 de abril, na tenda da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

O encontro reuniu lideranças da coordenação institucional da Rede (Coiab, CONAQ e CNS) que compartilharam experiências concretas sobre o impacto da conectividade nos territórios.

A secretária dos Grupos de Trabalho da Rede Conexão Povos da Floresta, Ana Netto, destacou o papel da telessaúde como ferramenta de ampliação do acesso à saúde. “Com a Rede Conexão Povos da Floresta, se uma pessoa tem um problema de saúde na comunidade e não pode sair de lá, ela pode falar diretamente com um médico, um clínico-geral. O sistema permite que você faça medições de sinais vitais para saber até mesmo seu estado geral de saúde antes mesmo de ir à Unidade Básica de Saúde (UBS). É um complemento ao sistema público de saúde com mais possibilidades de acesso.”

Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab, ressaltou o impacto direto da conectividade em territórios com dificuldades de acesso. “A Rede Conexão tem essa facilidade de tirar as nossas comunidades do isolamento. uma antena na Terra Indígena Jamamadi, no Acre. Não tem luz, não tem pista de pouso, e nós instalamos  a conectividade lá. Os parentes se sentiram tão felizes de ter a internet lá, porque eles puderam se conectar com os outros. Isso permite a comunicação com o distrito sanitário em casos de emergência, como picada de cobra, possibilitando a remoção do paciente.”

Ele também destacou o uso estratégico da internet para o monitoramento territorial.  “A Coiab está trabalhando a questão da instalação da internet porque nós temos um programa, uma plataforma de monitoramento territorial. Então, pra isso também vai servir a conexão pra gente receber os dados das nossas comunidades, dos nossos territórios”, declarou.

Representando o CNS, o secretário de Formação e Comunicação Joaquim Belo enfatizou a importância de uma comunicação alinhada às realidades locais. “O desafio que a educação é para os povos tradicionais, a internet não vai resolver isso, mas ela pode ser uma ferramenta para ajudar na pauta da educação, da saúde, do empreendedorismo, e todas as medidas que estão dentro da Rede Conexão. Eu acho que essa é a grande virtude da Rede Conexão Povos da Floresta, que ela não tá chegando como chega qualquer internet, só pra você consumir aquilo que está sendo organizado pelo mesmo sistema de comunicação, de manipulação de informações e consumo, que tem condição de levar uma comunicação mais orgânica, daquilo que a comunidade precisa”.

José Carlos Galiza, coordenador na CONAQ, destacou o papel da Rede Conexão no acesso a políticas públicas e oportunidades. “Queremos que a Rede Conexão seja um portal que facilite o acesso das pessoas, das comunidades às políticas públicas, porque estamos levando formação e informação sobre as políticas públicas.  Então hoje, esse resultado do trabalho da Rede nas comunidades já se vê em mais pessoas acessando as universidades, porque agora conseguem se inscrever, tem mais pessoas que, quando voltam pra casa, tem uma internet pra continuar fazendo o trabalho em casa, tem mais pessoas acessando as políticas públicas”.

Durante a mesa-redonda, a Rede Conexão Povos da Floresta também realizou o lançamento oficial da IA Parente, uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida para atuar como canal direto de informações sobre a própria Rede e sobre políticas públicas, com foco nas comunidades conectadas pela iniciativa. A proposta é ampliar o acesso à informação qualificada de forma simples e acessível, fortalecendo a autonomia dos territórios. 

Conectividade a serviço da proteção territorial

Crédito: João Cunha/Rede Conexão Povos da Floresta

A conectividade também foi apresentada como ferramenta essencial para a defesa dos territórios. Amanda Ávila, da Gerência de Monitoramento Territorial Indígena (GEMTI/COIAB), destacou a importância do mapeamento e articulação de iniciativas locais. “Trouxemos ao ATL o cadastramento dos grupos de monitoramento nas Terras Indígenas da Amazônia. A conectividade permite comunicação com órgãos, advogados e organizações, enviando alertas e garantindo respostas mais rápidas para a proteção territorial”, afirmou.

Balcão de atendimento e demonstrações tecnológicas

Crédito: João Cunha/Rede Conexão Povos da Floresta

Durante todos os dias do ATL 2026, a Rede manteve um balcão de atendimento aberto ao público, funcionando como espaço de acolhimento, troca de informações e esclarecimento de dúvidas sobre a iniciativa.

Além disso, foram realizadas demonstrações práticas de tecnologias implementadas nos territórios, como o sistema de telessaúde e sensores de qualidade do ar, evidenciando como a conectividade pode gerar impactos concretos na vida das comunidades.

A experiência prática também foi compartilhada por Celestino Cabixi, facilitador na Aldeia Pedreira (RO): “Antes da Rede chegar, a gente vivia praticamente isolado. Hoje conseguimos vender nossos produtos, fazer cursos e contribuir com a proteção territorial usando aplicativos. Melhorou muito mesmo.”

Sobre a Rede Conexão Povos da Floresta

A Rede Conexão Povos da Floresta é uma iniciativa que tem como objetivo viabilizar, até o final da década, a inclusão digital e o acesso a políticas públicas para 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades, começando pela Amazônia e avançando para outras regiões em isolamento digital.

Liderada por CONAQ, COIAB e CNS, a iniciativa reúne mais de 50 organizações parceiras e atua com base em três pilares: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital com empoderamento. A proposta é garantir que a conectividade vá além do acesso à internet, tornando-se uma ferramenta de transformação social, promoção de direitos e conservação da floresta.