Formação piloto capacita 15 moradores do Baixo Tapajós para operar e manter sistemas de energia solar em seus próprios territórios

Na última semana, entre os dias 1 a 5 de dezembro, 15 comunitários indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhos de diferentes territórios da Amazônia participaram da fase presencial da 1ª Formação de Agentes Comunitários de Energia, realizada no Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA), localizado na comunidade Carão (PA), na Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns.

Essa é a turma piloto de uma iniciativa realizada pela Rede Conexão Povos da Floresta, por meio do Projeto Saúde e Alegria (PSA), Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) e WWF-Brasil, com o objetivo de capacitar comunitários para atuarem na gestão, manutenção e uso sustentável de sistemas de energia solar em comunidades amazônicas.

“O curso foi desenvolvido e planejado pelas organizações que são membros da Rede Conexão e atuam no nosso Grupo de Trabalho (GT) de Energia”, afirma Sabrina Costa, coordenadora de operações da Rede Conexão Povos da Floresta. “No módulo presencial, estamos transformando todo o conteúdo trabalhado em prática, colocando a mão na massa na montagem e testagem dos painéis de energia solar. A nossa expectativa é que, em 2026, o curso esteja ainda mais robusto e possamos escalá-lo para outros territórios”.

Os participantes foram selecionados entre comunidades conectadas à Rede Conexão Povos da Floresta que possuem kits de energia solar instalados. “A finalidade do curso é fortalecer essas comunidades para que possam fazer a sua própria gestão de energia, ter autonomia para a manutenção desses sistemas e não depender sempre de uma mão de obra da cidade”, explica Jussara Salgado, coordenadora do programa de infraestrutura comunitária do Projeto Saúde e Alegria.

A formação combinou uma fase de Educação a Distância (EaD) e prática presencial. O módulo online, iniciado em outubro, abordou temas como universalização do acesso à energia na Amazônia, direitos dos consumidores, eletricidade básica, eficiência energética e fundamentos da energia solar fotovoltaica off-grid.

Já na etapa presencial, os participantes aprofundaram o conteúdo em atividades práticas, incluindo montagem de circuitos, instalação e dimensionamento de sistemas solares off-grid, leitura de carga e orientações de segurança.

“Estar aqui no curso é um desafio e, ao mesmo tempo, é muito importante para nós mulheres, para nós lideranças que estamos atuando nos territórios”, conta Reginalva Godinho, uma das alunas da formação, moradora da comunidade Anã Rio Arapiuns. “A energia é o meio de tudo: da saúde, da educação. A responsabilidade agora é chegar na comunidade, fazer a devolutiva e ajudar nossas companheiras e companheiros com o que aprendemos aqui”.

Sandbox regulatório e políticas de universalização

A formação também integra o Sandbox Regulatório do Ministério de Minas e Energia (MME) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), criado para testar e aprimorar soluções de energia limpa, segura e acessível em territórios da Amazônia.

“Esse curso nos permite demonstrar uma forma de capacitar pessoas que vivem nos territórios quilombolas, indígenas e extrativistas para que elas mesmas possam solucionar problemas energéticos nas suas comunidades e melhorar a qualidade do acesso à energia”, explica Vinícius Oliveira, pesquisador do IEMA. “Uma coisa é fazer formação em ambiente urbano, com quem já tem acesso pleno à energia. Outra é formar comunitários que muitas vezes nunca tiveram um serviço adequado”.

Da perspectiva regulatória, a Aneel aproximou sua atuação da realidade das comunidades amazônicas. “Os agentes comunitários de energia são fundamentais para que a gente possa ter energia de forma perene e sustentável aqui na região da Amazônia, onde muitas comunidades estão a horas ou dias de barco das grandes cidades. Quando surge um problema, o atendimento da concessionária nem sempre é rápido. Por isso, é essencial formar agentes que possam atuar diretamente nas comunidades”, avalia Letícia Lengruber, especialista em regulação da ANEEL.

A formação nasceu de demandas concretas dos territórios conectados pela Rede Conexão Povos da Floresta. Na Resex Tapajós-Arapiuns, por exemplo, muitas comunidades ainda não contam com energia 24 horas e dependem de motores a diesel ou sistemas solares instalados de forma precária.

Para o WWF-Brasil, a formação reforça a necessidade de quadros locais qualificados para dialogar com empresas e governos e adaptar soluções às realidades comunitárias.

“Um dos principais problemas das comunidades no Norte é que o fornecimento tradicional de energia não dá conta das necessidades reais das famílias, nem dos usos culturais, nem da produção”, reforça Alessandra Mathyas, analista de conservação do WWF-Brasil. “Esse curso reúne diferentes grupos para que, coletivamente, se entenda como a energia deve ser usada e adaptada à realidade de cada território”.

Ao qualificar moradores para operar e manter sistemas de energia solar, o curso também contribui para a segurança dos sistemas, a ampliação da vida útil dos equipamentos e a redução de interrupções prolongadas.

A partir dessa edição piloto, a ideia é planejar novas turmas do curso em outros territórios a partir de 2026, consolidando os agentes comunitários de energia como peças centrais da transição energética justa e inclusiva na Amazônia.

O curso contou também com apoio da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Revolusolar, ION Energia, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) e participação das concessionárias de energia Energisa e Amazonas Energia.

Sobre a Rede Conexão Povos da Floresta

A Rede Conexão Povos da Floresta é uma iniciativa conjunta que tem como missão conectar em rede, de forma rápida, segura e consciente, as comunidades dos povos da floresta no Brasil. A ideia é que a conectividade significativa seja um caminho para ampliar o acesso a direitos e políticas públicas nas comunidades beneficiadas. Atualmente, até dezembro de 2025, mais de 2 mil comunidades em áreas protegidas da Amazônia Legal já foram conectadas pelo projeto.

O projeto é liderado pelas organizações de base CONAQ, COIAB e CNS, em parceria com mais de 50 organizações da sociedade civil, instituições e empresas.

A Rede Conexão atua com base em três pilares centrais – infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital consciente -, de modo que a internet funcione como uma ferramenta de transformação social para as comunidades beneficiadas, permitindo o acesso à saúde, educação e oportunidades profissionais e, com isso, ajudando na conservação da floresta e no uso consciente da rede.